Número de óbitos cresce mês após mês, ao contrário de países como EUA, Itália e Espanha.

Epidemiologista diz que é 'descabido' o 5º mês de pandemia ser o de mais mortes; há divergências sobre tendência de aumento daqui por diante.

Mortes por Covid-19 até 31 de julho no Brasil e em outros países Guilherme Luiz Pinheiro/G1 O Brasil teve, em julho, 32.912 mortes confirmadas pela Covid-19, segundo dados apurados pelo consórcio de veículos de imprensa – do qual o G1 faz parte – junto às secretarias de Saúde do país.

O número é o mais alto registrado em um único mês desde o início da pandemia. O dado foi calculado subtraindo-se as mortes totais no dia 30 de junho (59.656) do total de mortes até 31 de julho, que era de 92.568 até as 20h.

Os números dos meses anteriores foram identificados com o uso da mesma metodologia. Desde que o primeiro caso de Covid-19 foi registrado no Brasil, a quantidade de mortes por mês segue crescente no país (veja gráfico abaixo).

Julho foi o segundo mês seguido em que mais de 30 mil pessoas morreram em solo brasileiro devido à infecção pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2). O consórcio de veículos de imprensa começou o levantamento conjunto no início de junho.

Por isso, os dados mensais de maio, abril, março e fevereiro são de levantamentos exclusivos do G1.

A fonte de ambos os monitoramentos, entretanto, é a mesma: as secretarias estaduais de Saúde. Tendências Para o epidemiologista Pedro Hallal, reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a tendência de aumento nas mortes mostra o "total fracasso" do Brasil em combater a pandemia. "Não precisava ser assim.

Não tem nenhum motivo para um país onde a pandemia chegou em março o quinto mês da pandemia ser o mês com mais mortes.

Isso é completamente descabido.

Só mostra o total fracasso do Brasil no combate à pandemia", afirma Hallal. O epidemiologista, que comanda a Epicovid, considerada o maior estudo brasileiro sobre prevalência do coronavírus, afirma que o pais falhou nas principais medidas que poderiam conter a transmissão da doença: a testagem massiva, a busca ativa dos casos e o distanciamento social.

Homem é testado para a Covid-19 pelo Instituto Butantan no quilombo Peropava, em Registro, interior de São Paulo, no dia 29 de julho. Amanda Perobelli/Reuters CONTÁGIO: Cada pessoa infectada com Covid-19 transmitiu doença para outras 3 nos primeiros meses da epidemia no Brasil, mostra estudo As medidas para restringir o contato social, implantadas em março em várias partes do país, sinalizaram um bom início para o Brasil até abril, avalia Hallal, mas, desde maio, vêm sendo relaxadas. "Se o Brasil continuar não fazendo o distanciamento social nas cidades onde os números ainda estão estabilizados ou crescendo, agosto vai 'ganhar' de julho e vai ser, de novo, o mês com mais mortes", prevê. "A única forma de prevenir que agosto ultrapasse julho é se, nos lugares onde os números estão estáveis ou subindo, fazer lockdowns rigorosos, que nunca foram feitos no Brasil", afirma o epidemiologista.

"Mas, se as pessoas ficarem saindo na rua como se fosse vida normal, enquanto o número diário de casos ainda é alto, o que vai acontecer é que essas pessoas vão transmitir para outras, é óbvio", diz. Movimento intenso no comércio marca 4ª fase de reabertura em Macapá, no dia 31 de julho Caio Coutinho/G1 Já o epidemiologista Paulo Lotufo, da Faculdade de Medicina da USP, avalia que a tendência é de redução no número de mortes daqui para a frente.

Isso porque a Covid-19 não chegou a todos os estados brasileiros ao mesmo tempo, e, nos mais populosos, já se vê diminuição nos casos e óbitos. "Tem lugares muito populosos – Minas Gerais, interior de São Paulo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina – que puxam [o número de mortes] para cima.

Os outros [lugares] estão caindo, mas eles estão puxando para cima", explica Lotufo. "Os estados do Nordeste, o Amazonas e o Pará estão em queda [de mortes].

O Sul, Minas Gerais e o Centro-Oeste estão em aumento.

Em São Paulo, a capital e a grande SP têm queda, mas o interior aumenta", lembra o epidemiologista. DESIGUALDADE: Percentual de pessoas infectadas com coronavírus nos bairros pobres da cidade de SP é 2,5 vezes maior do que nos ricos COR DA PELE: Mortes entre pretos e pardos por doenças respiratórias crescem mais do que entre brancos durante a pandemia Ele avalia que, mesmo nos estados onde as mortes estão aumentando, a tendência é que logo cheguem ao ponto máximo, e depois passem a cair. "E, aí, a nossa esperança é que os outros não subam.

Ou, se vão subir, não vão subir na mesma intensidade com que subiram em abril ou maio.

É praticamente impossível ter a mesma mortalidade de maio em agosto ou setembro", afirma. Nos EUA, queda Homem atravessa rua vazia perto da Times Square, em Nova York, em meio à pandemia do novo coronavírus nos EUA Mark Lennihan/AP País com mais mortes por Covid-19 no mundo, os Estados Unidos vêm registrando uma queda no número de óbitos por mês desde abril, tendência oposta à do Brasil (veja gráfico mais abaixo). Em julho, foram 23.851 mortes reportadas à Organização Mundial de Saúde (OMS).

O número bateu recorde em abril, quando mais de 50 mil pessoas morreram em solo americano por causa da doença. Os números americanos também foram calculados usando a quantidade total de mortes no último dia de cada mês menos a quantidade total no último dia do mês anterior, conforme boletins da OMS. "É o normal, é o que seria observado em todos os lugares do mundo.

Neste momento, a Suécia, a Alemanha, a Inglaterra – todos os lugares estão decrescendo muito o número de óbitos.

Esse resultado do Brasil é inédito", compara Pedro Hallal, da UFPel. Apesar da redução no número de mortes que vêm ocorrendo nos EUA, ao longo do mês de julho, houve crescimento das infecções nos estados norte-americanos do Arizona, Califórnia, Flórida e Texas, o que obrigou governos a repensarem a reabertura da economia. ALTA: OMS registra novo recorde de casos de coronavírus no mundo, com mais de 292 mil infecções em 24 horas Ao mesmo tempo, na Europa, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta para o aumento de contágios entre os jovens.

Segundo o diretor-geral da entidade, Tedros Adhanom picos de transmissão registrados em vários países europeus recentemente foram provocados, em parte, por jovens que baixaram a guarda no verão do Hemisfério Norte. Na sexta-feira (31), o México se tornou o terceiro país com mais mortes pela Covid-19 no mundo, ultrapassando o Reino Unido e ficando atrás de Brasil e EUA. Em quinto lugar na lista está a Índia, seguida de Itália, França, Espanha, Peru e Irã, os dez países com mais óbitos na pandemia seundo monitroamento da Universidade Johns Hopkins. G1 no É de Casa: Brasil tem mais de 92,5 mil mortes por covid-19